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  • mairasoliver

Small Axe: Lovers Rock - o amor preto cura

Small Axe (2020) é uma antologia composta por cinco filmes originais dirigidos por Steve McQueen e ambientados entre o final dos anos 1960 e meados dos anos 1980, contando histórias pessoais da comunidade negra de Londres. Este título é derivado do provérbio africano, mais tarde popularizado por Bob Marley & the Wailers.


"Se você é a árvore grande, nós somos o machado pequeno"


O lovers rock é um estilo musical rastafari com inspiração no R & B e no Soul. O amor como tema dessa vertente, a deixou muito popular no período que inspira a série, e não a toa Lovers Rock é o nome do segundo filme de Small Axe. Co-escrito por McQueen e Courttia Newland, são quase 70 minutos construídos em torno de um único arco (menina conhece menino), no entanto, o mundo é apresentado de forma tão convincente que, no final, você terá certeza de que estava lá.



Enquanto incorpora vários personagens que aparecem ao longo do filme, o foco é em grande parte em Martha (Amarah-Jah St. Aubyn), que se propõe a passar a noite numa festa para jovens negros - que não eram bem-vindos em casas noturnas -, com sua amiga Patty (Shaniqua Okwok) e lá conhece Franklyn (Micheal Ward), com que vive um romance de uma noite. O que se segue é um sentimento contínuo de liberdade para esses festeiros, já que qualquer senso de conspiração fica em segundo plano para uma câmera que flui através da multidão, observando conversas e dançando junto com a galera. A escolha é por adiar a incorporação de outros arcos narrativos ou qualquer mudança real na dinâmica da noite, fora do tipo de conexão que aconteceria de forma realista em uma festa. Lovers Rock é a própria progressão natural das coisas, quando não se há nada mais com que se preocupar. Invasão de policiais, grandes brigas, protestos para desligar a música…? Esquece. Esta parte da antologia é única e exclusivamente sobre encontrar alegria.


É uma segunda entrada fantástica nesta série antológica, servindo como uma mudança interessante no tom, em comparação com Os nove de Mangrove (primeiro filme), mas que continua na sua unidade temática: orgulho pela comunidade negra.


Mais maravilhoso do que personagens explodindo em música e dança é um filme que se contenta em deixar uma sequência estendida de música tocar, enquanto todos (a gente inclusive) se divertem no momento. Lovers Rock gasta mais da metade de seu tempo nisso, e tá pouco! Em um momento hipnótico, chegamos ao fim dessa sequência de mais de 15 minutos na sala lotada que canta a capella Silly Games de Janet Kay. A câmera faz um corte ou outro ocasional para diferentes partes do cômodo, mas em grande parte apenas se detém nesses corpos bailantes, não permitindo que nada os impeça de ter esse momento.


Não se deixando levar por apresentações dramatizadas de momentos da história britânica e do horror da colonialidade, Lovers Rock dá a sensação de uma maravilhosa fatia da vida vivida com a plenitude a que temos direito. Tal qual vivemos naqueles breves segundos do curta Something Good – Negro Kiss. Em Something Good, assim como em Small Axe um casal negro troca diversos beijos e carinhos, sem um olhar fetichista e esteriotipado sobre o relacionamento, transmitindo naturalidade e prazer tal qual deve ser. O filme foi redescoberto recentemente apesar de datar de 1898! Sim, mais 120 anos se passaram até que pudéssemos ter a mesma sensação de novo com Martha e Franklyn, mas o nosso machado taí, tal qual a justiça de que o empunha. Káwó Kábíẹ̀sí Ilẹ̀



Para as acadêmicas de plantão...

bell hooks descreve o amor como a própria revolução e reivindica que ele esteja presente em nossas vidas, pois foi justo a falta dele que criou dificuldades na garantia da nossa sobrevivência. Pois o amor é a vida plena. Quando falamos em mudanças na sociedade que garantam a sobrevivência de uma população negra, pouco ou nada se fala de amor. Enquanto desenvolvemos nossa capacidade de enfrentar a vida pública, aprendemos também a negar nossos sentimentos retroalimentando esse ciclo de desumanização que a colonialidade nos impõe. Escolher o amor como propulsor narrativo é reiterar essa potência como discutida por bell hooks que aqui a gente traduz em “amor preto cura”. Então… nem preciso dizer que vale assistir, né? Os 5 filmes estão disponíveis na Globoplay.




Quer se prolongar a o love rocks? Escute a playlist da série aqui.


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